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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Ao Cair da Noite"
2017
Direção: Trey Edward Shults


FILME DA NOVA SAFRA DO TERROR NORTE-AMERICANO DESENVOLVE UM CLIMA SOMBRIO ATÉ INTERESSANTE, MAS, PECA NUM DESFECHO EXTREMADO DEMAIS

E, cá estamos em mais uma produção do "novo terror norte-americano", que já englobou filmes como recentes, como "A Bruxa", "A Autópsia" e "Corra!", todos bons, porém, superestimados. E, eis que surge mais um para engrossar a lista, que é este "Ao Cair da Noite", que segue exatamente o padrão dos demais: um horror climático e psicológico, que de novo mão tem nada, têm até conduções interessantes, mas, que não conseguem, de fato, gerar medo nas plateias mundo afora. E, essa deficiência se deve muito ao fato de que esses novos realizadores, a despeito das boas intenções, parecem ter aprendido como fazer o terror psicológico como forma e não como conteúdo. Mesmo que a câmera seja engenhosa, ou que a iluminação soe a mais natural possível, para criar um clima de pavor, é preciso que haja algo mais ("algo" que este "Ao Cair da Noite" ficou no meio do caminho).




Talvez, o grande demérito de "Ao Cair da Noite" seja o seu roteiro frouxo, que dá a impressão de que está desenvolvendo bem os personagens, quando, na verdade, não está. As primeiras cenas do filme mostram bem isso: vemos um senhor agonizando com uma espécie de doença desconhecida, o seu neto e o seu genro precisando sacrificá-lo para que ele não contamine os demais, e logo após, queimando o corpo. Depois disso, temos um pequeno panorama do local: uma velha cabana onde residem o casal Paul e Sarah, e o seu filho Travis. Muito pouco é mostrado para nos afeiçoarmos aos personagens, para nos identificarmos com eles, ou, pelo menos, para nos importarmos com as suas vidas. Ao invés disso, temos o uso e o abuso de recursos habituais do horror, como pouca luz, clima claustrofóbico, e por aí vai. Um ambiente que se desenvolve mais do que os próprios personagens.

A coisa não melhora, nesse sentido, nem quando aparecem na história mais uma família: o casal Will e Kim, e o seu filho pequeno Andrew. De início, reticentes com os novos visitantes, principalmente, em relação à estranha epidemia que se alastra pela região, Paul e Sarah vão incorporando os novos "amigos" à rotina deles, mas, não sem continuarem a ter uma perturbadora desconfiança de que algo pode dar errado. E, é aí que vemos ainda mais a fragilidade do roteiro, que quer abarcar temas como a paranoia e as relações familiares, mas, que, primeiro, precisaria desenvolver melhor esses personagens, mesmo que de maneira dúbia, para que pudéssemos concordar ou discordar das atitudes de todos ali. Do jeito que fica, a narrativa transcorre tranquilamente, enquanto vemos personagens praticamente vazios. Há tentativas de nos "aproximarmos" deles, é verdade, como mostrar momentos de descontração, com Will ensinando Travis como cortar lenha, ou numa conversa amigável entre Paul e Will, mas, tudo aparentando raso e artificial.






Um dos grandes méritos do filme é, sem dúvida, a sua ambientação, que causa certo desconforto no espectador. E, mesmo que os personagens, coimo um todo, soem irrelevantes para o espectador, ao menos, temos um que consegue, dentro da trama, ter algo interessante a mostra: Travis, o filho adolescente de Paul e Sarah. Sendo tão jovem e presenciando algumas coisas verdadeiramente terríveis, é interessante ver como ele é um rapaz calado, recluso, com um sentimento constante de opressão e angústia. Mas, mesmo esse personagem sendo o mais bem elaborado do roteiro, ainda assim, sua construção se perde em meio a sequências com mais estilo do que conteúdo em si, como as que representam os seus mais profundos pesadelos. Fica parecendo que o roteiro quer carregar demais no drama onde não precisaria ter tanto drama, ou, ao menos, que isso fosse construído em tela de forma mais gradativa.

Por sinal, é no clímax, e, consequentemente, no choque de realidade do personagem Travis, que encontramos a maior falha da trama, que é quando certos pessoas cometem atos hediondos a troca de nada. Obviamente, que conseguimos até abstrair a intenção dessa sequência, que é mostrar como uma paranoia infundada, misturada a um sentimento mesquinho de auto-preservação pode transformar o ser humano em alguém terrível, passível das piores barbaridades. O problema é que, para que o impacto fosse bem maior e bem mais convincente, seria necessário que o filme tivesse construído esses personagens antes da tal epidemia começar a assolar a população, o que nos faria refletir como pessoas, a princípio, tão boas, puderam ficar horríveis em suas intenções e em seus atos. Do jeito que foi feita, a catarse de "Ao Cair da Noite" parece mais violência gratuita, com o único intuito de chocar o espectador.




Para ficar ainda mais clara essa questão da falha na construção dos personagens em "Ao Cair da Noite", pensemos na série televisiva "The Walking Dead". Por mais que as decisões no direcionamento de certos personagens nela seja algo muito questionável, pelo menos, tivemos, ao longo de vários episódios, uma (des)construção muito gradativa da personalidade de muitos ali. Em "Ao Cair da Noite", uma hora e maia se mostrou tempo insuficiente para que que tivéssemos empatia (ou, antipatia) pelos personagens. Ficamos horrorizados, mas também neutros em relação ao que está acontecendo ali. Portanto, se a questão era mostrar o lado obscuro do ser humano em condições adversas, o filme fracassa bastante. Principalmente, se levarmos em conta que as atuações não ajudam muito, com um melhor desempenho de Kelvin Harrison no papel de Travis, e, mesmo assim, sua performance não tem nada de especial. Ao menos, o diretor estreante Trey Edward Shults (também responsável pelo roteiro) mostra alguma inventividade em certos momentos, além de imprimir uma narrativa até boa à história.

No geral, "Ao Cair da Noite" rema na maré das possibilidades, apenas. Tem uma ótima premissa e um diretor razoavelmente talentoso, que nos proporciona um clima sombrio até interessante, mas, um roteiro que não explora de maneira marcante a deterioração mental das pessoas devido a pensamentos paranoicos por autosobrevivência, mostrando-se como sendo um recorte chocante (e, nada mais) em um ambiente inóspito. Com muito esforço, qualquer reflexão fica a cargo do espectador, que supõe apenas isso ou aquilo (sem, é claro, que o filme, sequer, instigue a questão do mistério em nossas mentes). Que essa safra do "novo terror norte-americano", enfim, melhore suas realizações, pois, não é apenas com estilo que se faz um grande horror psicológico.


Nota: 6/10


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