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Documentário Mais ou Menos Recomendável

"O Jardim das Aflições"
2017
Direção: Josias Teófilo


DOCUMENTÁRIO TENTA APRESENTAR O POLÊMICO FILÓSOFO A UM NOVO E MAIOR PÚBLICO, MAS, PERDE-SE NA CONTEMPLAÇÃO EXCESSIVA AO SEU PERSONAGEM

Algumas produções estão fadadas à polêmica, ainda mais nesses tempos de polarização cada vez maior das ideologias. Numa espécie de "Guerra Fria moderna", onde só se pode ter dois lados, como analisar um documentário que tem como "personagem principal" o assumidamente direitista Olavo de Carvalho? O ideal é que qualquer análise fosse isenta, imparcial. Porém, o próprio Olavo não é imparcial, deixando suas posições muito claras, principalmente, nas redes sociais. E, é aí que esse documentário, à primeira vista, causa um certo estranhamento, pois, mostra uma pessoal mais gentil e palatável do que a que se apresenta, muitas vezes, como paladino intelectual da moral. Soa, digamos, um "estelionato ideológico", como se a intenção da produção fosse "fabricar" um Olavo mais "família" para que ele consiga mais adeptos, mais seguidores, mais fãs.




Muitos defensores ferrenhos do documentário (obviamente, não apenas com uma visão imparcial, mas, totalmente apaixonada da obra em questão) afirmaram que a produção não tem nada de partidária ou política, tratando unicamente dos temas do pensamento e da filosofia. No entanto, esses mesmos defensores se esquecem de que o filosofia, por si, já é uma tomada de partido, uma forma crítica de se analisar o mundo ao seu redor. Um dos problemas de "O Jardim das Aflições"? É reduzir essa visão crítica, onde o Estado é o único vilão, onde apenas um partido político (no Brasil) detém toda a questão da corrupção, e onde apenas um sistema (o Comunismo) é falho. É a unilateralidade da verdade, onde algo exposto tem até uma certa razão, mas, colocado em apenas um ponto, sob apenas uma ótima. Um problema, por sinal, que se encontra, em peso, na obra literária de Olavo de Carvalho.

O documentário, como produto cinematográfico é interessante. Tecnicamente bem feito, com boa trilha sonora, apresentando de maneira correta o seu "personagem". Nesse sentido, a direção do estreante Josias Teófilo não compromete. O problema, voltando a repetir, é a proposta de tentar "vender" uma imagem de Olavo que, com rápidas pesquisas, descobrimos que ele não é, assim, uma pessoa tão maleável. Chega a ser até meio constrangedor quando a produção "empurra" imagens da família no meio da produção para tentar "humanizar" Olavo, transformá-lo em alguém que preza por certos valores morais. Nessas passagens, também fica bem forçada a participação de sua esposa Roxane, que tem pelo seu famoso marido um deslumbramento que beira o vergonhoso. Inclusive, a participação dela no documentário se resume a ser mostrada fazendo trabalhos domésticos e a olhar para Olavo com expressão de admiração fora do comum. Claramente, é um artifício da produção que não convence.




Quando se concentra única e exclusivamente no pensamento filosófico de seu "personagem", o documentário ganha certa substância, como nas boas referências a Epicuro e Aristóteles. Uma das partes mais interessantes, neste aspecto, é quando Olavo fala da nossa formação enquanto indivíduos, seja este uma formação interna (a hereditariedade), seja a externa (absorção de cultura). O que vai, segundo ele, determinar QUEM é você, e se você se deixará modelar pela cultura, ou se vai absorvê-la para uso próprio. Nesse sentido, o elemento fundamental é a educação. E, é irônico que o próprio Olavo de Carvalho diga no documentário que o problema das instituições de ensino é que elas apenas transmitem o conhecimento, mas, não ajudam o aluno a unificar e entender esse conhecimento. Só que o projeto Escola Sem Partido, por exemplo, prega contra isso, e a ironia está no fato dos partidários desse projeto serem admiradores do próprio Olavo. São interessantes visões e provocações que vamos captando aqui e acolá, porém, que estão tão diluídas na produção, que, no geral, o conhecimento filosófico reunido aqui soa muito raso.

Há um vislumbre de ideias minimamente intensas já ao final do documentário, quando é citado um trecho de "A Rebelião das Massas", de José Ortega y Gasset, onde uma das melhores passagens é esta: "Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas 'ideias' fantasmagóricas e olha de frente a vida, e se convence de que tudo nela é problemático, e se sente perdido". Logo depois, Olavo faz uma boa dissertação sobre o sentido da eternidade da História, sobre a finitude da vida, e sobre a permanência da identidade. Trata-se (ora, vejam só!) de uma bonita reflexão, que, ao menos, encerra bem "O Jardim das Aflições". Pena que "fazer pensar", de fato e de direito, não tenha sido o ponto fundamental do documentário ao longo de sua uma hora e vinte e três minutos de duração.  




"O Jardim das Aflições", no final das contas, é um trabalho mediano. Apresenta algumas boas ideias e referências, mas, se perde quando, na maior parte do tempo, ou é declaradamente partidário (politicamente falando), ou quer transformar o seu personagem principal numa espécie de "Deus", cânone incontestável do pensamento moderno. A própria postura mais contida de Olavo de Carvalho na produção contrasta bastante com sua persona agressiva na, digamos, "vida real". Se fosse um documentário mais honesto, mostrando o filósofo de maneira mais realista e menos romantizada, e se concentrado mais no seu conhecimento teórico da filosofia em si, a produção, mesmo desagradando a alguns, ficaria bem mais interessante. Do jeito que ficou, não "apresenta", de fato, Olavo de Carvalho para um público novo, e se torna mais um objeto para a polaridade que tomou conta do Brasil nos últimos tempos. Recomendado, portanto, apenas para os fãs mais ardoroso do "filósofo astrólogo".

PS: continuo discordando do boicote que alguns cineastas quiseram fazer ao documentário "O Jardim das Aflições" no Cine PE desse ano. Somos mais inteligentes do que isso, e podemos protestar das mais diversas maneiras. Só não podemos protestar através da censura. "O Jardim das Aflições" deve ser assistido como qualquer outra produção, independente de ideologias, e que cada um, ao final, tire as suas próprias conclusões.


Nota: 5/10



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